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Só dói...

"A saga do Rio de Janeiro do século XX pode ser recuperada em três momentos: a Paris dos Trópicos, na entrada do século; o Paraíso Tropical, em meados do século; e a Miami da América do Sul, ao fim do século. O olhar orgulhoso e confiante foi sucedido pelo olhar satisfeito e complacente e deu lugar ao olhar acanhado e fugidio. O Rio trafega para a pós-modernidade, sujeito aos efeitos e influências da globalização, e a perplexidade inunda o seu olhar. Da construção do mito Rio chega-se à sua destruição. O Rio não voltará à centralidade anterior na imagem-Brasil. É irreversível o processo de erosão. É sonho impossível pensar que o Rio volte a ocupar no imaginário brasileiro seu passado papel. Não tem sentido chorar sobre o leite derramado. Um mito, uma vez desconstruído, não é restaurável. O culto que consagrou a cidade maravilha tropical, com praias, lagoas e florestas por todos os lados foi dissolvido."
Está em O Rio de todos os Brasis - uma reflexão em busca de auto-estima, livro apaixonado e perturbador de Carlos Lessa. (Record, 2001; p. 413).
Escrito por Filipe às 04h17
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Sinal dos tempos

Placa num burro sem rabo que flanava pela Nossa Senhora de Copacabana:
"Deus vê tudo. Mas não é X-9."
Escrito por Filipe às 02h09
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Ô, crioula difíce!

Essa aconteceu há um tempão, me veio à memória depois do caso do cachorrinho oriental.
* * *
Ônibus lotado. De dentro dele, o gaiato solta para a loura monumental parada no ponto:
- E aí, lourinha, isso tudo é teu mesmo?
Bateu, levou:
- Não... pedi emprestado pra tua mãe!
Escrito por Filipe às 12h49
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Essa eu não vou perder!

Estréia hoje na Sala Baden Powell o show Lamartiníadas, com os três bicudos Pedro Paulo Malta, Alfredo Del-Penho e Pedro Miranda. Os cantores são acompanhados por músicos da pior espécie: Henrique e Beto Cazes, Oscar Bolão, Dirceu Leite e, como diria o saudoso Bezerra da Silva, mais uns e outros. Fica em cartaz neste e no próximo fim-de-semana (sextas e sábados às 21h, domingos às 20h). Ingressos a módicos R$ 15, com meia-entrada para estudantes e idosos.
Escrito por Filipe às 12h21
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Pai de todos

Hoje é aniversário do grande mestre do violão de sete cordas: Horondino José da Silva, o Dino. Ele completa 87 anos bem vividos e, de quebra, 70 anos de carreira. Foi o homem que mais desenvolveu e divulgou a arte do sete cordas brasileiro, surgido no início do século passado. Dino, que começou a tocar violão profissionalmente em 1935, passou para o sete cordas bons anos depois, em 1953, e desde então garantiu ao instrumento, antes cultivado por poucos músicos e quase limitado à condição de curiosidade, lugar definitivo na história da música brasileira. Graças a ele, o violão de sete - e não o violão de seis, o contrabaixo, o trombone ou outro instrumento qualquer - é hoje o baixo cantante por excelência das formações instrumentais associadas ao samba e ao choro.
Na esteira de seu talento vieram gerações de discípulos informais, entre os quais é possível lembrar de Raphael Rabello, Luiz Otávio Braga, os irmãos Valdir e Valter Silva, Darly Louzada, Chia, Cloves, Pedrinho Bastos, Rubens, Paulão Sete Cordas, Jorge Simas, Carlinhos Sete Cordas, Sombrinha, Maurício Carrilho, Josimar Carneiro, André Bellieny, Wander Fontana, Marcello Gonçalves, Lucas Porto, Nando Duarte e Tiago Prata, para ficarmos só no Rio de Janeiro. E Rogerinho Caetano, claro, goiano criado em Brasília que se mudou ano passado para cá e que, com pouco mais de vinte anos, é uma das grandes revelações do instrumento. Pois não há sete-cordas que não tenha se emocionado ao escutar Dino, que não tenha ouvido algumas de suas centenas e centenas de gravações para ficar "tirando os baixos", imitando suas inflexões, sua pegada, seu vocabulário de frases. Que sete-cordas não terá ouvido, de cabo a rabo, os indispensáveis "Vibrações" (RCA-Camden, 1969), com Jacob do Bandolim e o Época de Ouro, e "Cartola" (Marcus Pereira, 1974)?
Muitos tiveram aulas com Dino durante os mais de trinta anos em que lecionou na Casa Oliveira, na rua da Carioca, e no Bandolim de Ouro, na Marechal Floriano. Curiosamente, ele preferia ensinar a iniciantes e quase não dava aula de violão de sete, só de seis. Cheguei a estudar violão de seis com Dino, durante poucos meses, quando já era profissional do sete. Guardo desse tempo as melhores lembranças e histórias que merecem uma penca de posts por aqui. Uma vez eu disse a ele que, se o Brasil fosse sério, criava-se uma lei obrigando todo sete-cordas a depositar 10% de seus cachês na conta do mestre, a título de royalties. Não seria exagero. Dino sobrevive hoje com uma minguadíssima pensão e com a ajuda do filho único Dininho, também músico, grande figura, há anos baixista de Paulinho da Viola. Já aposentado por falta de condições de saúde (não faz mais shows, não grava, não dá mais aulas), o mestre leva uma vida digna em seu apartamento de Vila Isabel, porém igual à da grande multidão de idosos de classe média que precisam se privar de muita coisa para conseguir pagar plano de saúde e remédios. Se não fosse o amparo da família, sua situação seria certamente crítica. Mais uma injustiça contra mais um grande brasileiro.
Mas deixemos as inconformidades de lado, pelo menos por hoje. É dia de dar um abraço no velho. É dia de festejar seus oitenta e sete anos de vida e setenta de música – e que música! É dia de espalhar por aí que Dino 7 Cordas não é um qualquer, que Dino é gênio da raça, é craque da pelota, é o músico acompanhador que mais teve destaque como solista em toda a história da música brasileira, que Dino é assassino profissional, atirador de elite, equilíbrio supremo entre virtuosismo e concisão, pressão e suingue, inventividade e rigor, Dino é umbandista, sim senhor, e se fosse do candomblé bem podia ser devoto de Orumilá, divindade iorubá que é a dona da sabedoria, da adivinhação e das respostas (não é a resposta matéria-prima do sete cordas?), Dino é nossa memória, testemunha dos melhores e piores tempos que os profissionais da música já viveram no Brasil da indústria cultural, Dino é totem e fundador de uma nobilíssima estirpe, Dino é pai de todos os corações que vibram junto com a sétima corda.
Viva Horondino José da Silva! Viva Dino 7 Cordas!
Escrito por Filipe às 02h27
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Endereço do cachorrinho

Manhã de quarta-feira na Nossa Senhora de Copacabana. Em meio a camelôs, flanelinhas e transeuntes de todo tipo, desfila sestrosa a empregada da madame, mulata de responsa. Leva pela coleira um cãozinho de raça exótica.
Sem mais nem menos é abordada por um coroa, todo cheio de segundas intenções:
- Ele é chinês ou japonês?
Resposta na lata:
- Não sei... ele ainda não falou!
Escrito por Filipe às 13h58
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Data venia

Cumpre informar que este humílimo blogue é afilhado do celebérrimo, altissonante e indeletável Mascavinhas. Quaisquer semelhanças, portanto, não serão meras coincidências.
A bença!
Escrito por Filipe às 00h59
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Tenores dramáticos

Extra! Extra!
Os amigos Pedro Paulo Malta, Pedrinho Miranda e Alfredo Del-Penho, figuras carimbadas do circuito musical da Lapa, farão uma rara exibição de seus dotes teatrais no show Lamartiníadas, que estréia na Sala Baden Powell, em Copacabana, na próxima sexta-feira. Os três tenores interpretarão o poema Inteligência, de Lamartine Babo - o craque homenageado no espetáculo. Destaque para Pepê, impagável cover de Selton Mello.
Eis a íntegra do texto:
Inteligência amiga! Eu lhe pedia tanto
Que não fugisse assim... que não me abandonasse!
Que desse aos versos meus proverbial encanto...
Você nada atendeu, por mais que eu lhe implorasse!
A todos pergunto eu pela sua existência,
Que é feito de você... você que tanto exijo!
Ninguém sabe informar a sua residência
Sua casa de campo... o seu esconderijo!
Inteligência amiga! Estou desiludido!
Vivo sem luz, na treva, eternamente burro...
Sem ouvir sua voz, seu mínimo sussurro,
Cego continuarei, na escuridão envolvido!
Inteligência ingrata! E eu que fui tão seu amigo!
Tanto reclame fiz, quer no verso ou na prosa!
Falei do seu poder, do seu prestígio antigo,
Citando em cada exemplo: Homero... Rui Barbosa!
Combati o futebol... censurei os bolinas
À porta dos jornais, à mesa dos cafés...
Dizia que o Criador não inventara os pés
Pra se meter os pés... a não ser em botinas...
Inteligência ingrata! Atenda o justo apelo
De seu amigo fiel que tanto lhe defende!
Porque, numa cabeça, como é que se entende
A ausência do saber... se há lugar pra cabê-lo?
Não me adianta o livro, inteligência amiga!
Você longe de mim, a idéia não se esboça!
Conduzo o raciocínio a passos de carroça...
E a estupidez sorrindo... vence, me castiga!
E como a estupidez é feia quando ri!
Não tem um dente só! A gargalhada é aberta!
Se alguém lhe abrisse o crânio, encontrava, na certa,
Pedra, capim gordura, mosca e parati!
Escrito por Filipe às 14h48
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Preciso de um guru!

Por que não consigo fazer com que o texto tenha corpo 10, só 8 ou 12? [Hmmmm, essa eu descobri num processo de dar orgulho a meus ancestrais...] Porque não consigo fazer os títulos dos posts aumentarem de tamanho? Como aumentar um pouco a entrelinha? Como variar os tipos? [Idem.] Como conseguir publicar um perfil decente, com outras informações que não as do formulário do Uol Blog? Como transformar "outros sites" em "outros sítios", "eu visito" ou coisa parecida?
Escrito por Filipe às 12h53
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O mundo é bom (I)

Foie Gras inteiro, salteado em redução de Moscatel de Setúbal, com Uvas Moscatel
Ingredientes (para 4 pessoas):
1 foie gras cru (cerca de 500 g) 1 garrafa de Moscatel de Setúbal 1 dente de alho ½ sumo de limão 15 g de açúcar 3 cl de caldo de galinha concentrado 30 bagos de uva moscatel
Preparação: Lavar o foie gras, retirar-lhe o fel (normalmente já vem extraído) e secá-lo em papel de cozinha. Temperá-lo com uma mistura de sal (15 g), açúcar (5 g), pimenta (2 g) e um pouco de noz moscada. Cobrir com filme de cozinha e reservar 6 h. no frigorífico. Deitar o Moscatel numa caçarola e reduzi-lo lentamente (1 h. a 1,5 h.) a 1/5 do seu volume até ficar xaroposo. Retirar as grainhas das uvas.
Finalização: Esfregar o dente de alho numa frigideira antiaderente de fundo espesso. Selar o fígado com a frigideira bem quente até ficar dourado. Retirar a gordura formada.
Levar o fígado a uma terrina ou cocotte oval que vá ao lume e regá-lo com a redução do Moscatel. Misturar o açúcar com o sumo de limão e adicionar. Adicionar também o caldo de galinha. Por fim adicionar as uvas. Levar a lume brando durante cerca de 15 minutos, tendo o cuidado de regar o fígado com o molho formado.
Terminar com uma volta do moinho de pimenta e servir fatiado.
(De http://www.azeitao.net/vinhos/moscatel/moscatel_de_setubal.htm)
Escrito por Filipe às 03h24
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Enquete

O que é melhor: o miolo ou a casquinha?
Escrito por Filipe às 02h52
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Perfil lateral

Estranho esse perfil que aparece aí em cima à esquerda, né? Não, não o do Prete Rosso, que ilustra o post. É o lá de cima, que diz "BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, LEBLON, Homem".
Pois não dá pra falar mais nada ali! Não posso explicar que pasta de dente uso, qual o meu signo, meu time de futebol ou hobby predileto! Também não dá pra falar menos. Por exemplo, não dá pra não dizer que eu sou homem. Ora, porra, já não está assinado Filipe em tudo que é post, caralha? O nome não é de macho? Meu texto não é de macho? [Rrrrrrrrac-ptu! Coçada no saco à la Gallotti.]
E por que algumas coisas aparecem em caixa alta, e outras, alta e baixa? Por que, se eu digo que meu estado é o Rio de Janeiro, vem escrito indeletavelmente que estou na região sudeste? Aqui não é aula de geografia, ô breuba!
Teria a opção de não publicá-lo, mas, mesmo cambeta, vou deixar o perfil onde está.
Fica mais chique.
Escrito por Filipe às 02h18
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Conversa fiada

Faz sucesso entre os músicos do samba e outros canalhas, ultimamente, a expressão "de maneiras que só você vendo". Divulgada no meio pela doce voz da rainha Dona Ivone Lara, que dela se socorre sempre que vai mixando o papo, não quer dizer rigorosamente nada - e pode querer dizer muitíssima coisa. Recomendo.
Experimente pronunciá-la depois de um discreto suspiro, como quem dribla o silêncio. "Hmmm... é... de maneiras que só você vendo, sabe?..." Dá pra encaixar nas mais diversas situações, de papo de elevador até discussão sobre a relação. A inflexão fica por sua conta: pode sugerir alegria, decepção, frivolidade, angústia, reflexão profunda. Mas é preciso incluir sempre uma pitada de gaiatice. Importante sustentar longa pausa depois. Legítima versão suingada dos diálogos de Beckett.
Outras formas de nada dizer são exercitadas por essa mesma gentalha em casas noturnas e camarins, depois de assistirem a shows de seus colegas. Pode-se ter gostado ou não, tanto faz. Os usuários do "de maneiras que só você vendo" não perderão a chance de tecer comentários em linguagem deliciosamente obscura:
"Nunca vi nada igual!"
"Ficou a sua cara!"
"Im-pres-si-o-nan-te!"
"Me faltam palavras!"
"Mas como você conseguiu?"
(Ar gravíssimo. Caloroso tapinha nas costas.) "Olha... francamente!"
Escrito por Filipe às 17h05
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Então, sim

Pois é. Tou na área.
O problema é dar certo: mais uma coisa pra me ocupar...
Escrito por Filipe às 01h55
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